Túmulos
históricos do Bahrein podem sumir com o rápido avanço
da cidade. Interesses econômicos do governo não garantem
proteção ao patrimônio da 'Idade do bronze'. (Foto:
Shawn Baldwin/The New York Times)Comunidades preferem o progresso a manter cultura intacta. Governo não garante proteção para os monumentos.
Há um conflito de valores ocorrendo na capital do Bahrein, o que é comum na região. Sua fabulosa riqueza de petróleo e sua grande influência na globalização têm subjugado patrimônios e tradições.
A questão que paira neste pequeno reino no Golfo
Pérsico é esta: poderia Bahrein proteger a maior concentração de
sepulturas da Idade do Bronze já encontrada e, ainda assim,
corresponder às necessidades contemporâneas de seu povo?
Poderiam
eles preservar seu passado e, ao mesmo tempo, acomodar seu
presente? “As pessoas estão exigindo moradias e
desenvolvimento”, disse Al-Sayed Abdullah Ala’ali, membro do
parlamento. “Elas querem tudo que é importante para suas vidas hoje”.
Em
apenas algumas décadas, os petrodólares e a modernidade
dividiram os estados árabes no Golfo Pérsico, elevando os
padrões de vida enquanto esquecem práticas que haviam definido a
identidade do local por gerações.
A
pesca e o mergulho de pérolas foram substituídos por
petroquímicos e serviços financeiros. O inglês desafiou o árabe
como o idioma dos negócios.
Esquemas
tradicionais se tornaram novidades. O pouco da arquitetura
antiga que restava foi devastada para dar lugar aos arranha-céus
de aço e de vidro.
“É uma luta
entre velho e novo, entre identidade cultural e desenvolvimentos
recentes que a confrontam, entre autenticidade e modernidade”,
disse Ahmad Deyain, escritor de um vizinho regional, o Kuwait.
Túmulos históricos
Bahrein
é uma coleção de 36 ilhas no Golfo Pérsico, embora a maioria de
seus 730 mil residentes viva agrupada na capital, Manama.
Meio século atrás, havia dezenas de milhares de túmulos que conectavam os cidadãos de Bahrein ao passado da ilha.
As
sepulturas se estendiam sob um sol escaldante, a maioria com a
altura de um carro, cobertas de pequenas pedras cinza.
O
povo de Bahrein diz que havia mais de 300 mil, mas Karim
Hendili, conselheiro da Unesco junto ao ministro da cultura,
disse que o número estava mais próximo a 85 mil.
Ele
disse que há, no máximo, 6 mil restantes em 35 campos de
enterros. Esse é um número sobre o qual todos parecem concordar.
E esses locais restantes, segundo ele, “estão extremamente
ameaçados”.
Construídos por habitantes da ilha de aproximadamente 2.500 a.C. a 500 d.C., eles oferecem um olhar ao que Hendili chama de “uma civilização perdida da Idade do Bronze”.
Acredita-se
que o Bahrein tenha sido a capital de Dilmun, situada ao longo
de uma rota de comércio ligando o Vale do Indo e a Mesopotâmia.
A maioria dos túmulos contém uma câmara mortuária no formato de uma bota ao seu lado. O corpo era colocado em posição fetal enquanto os itens pessoais, potes de cerâmica, selos pessoais e facas eram armazenados aos pés.
O
valor da sepultura não está necessariamente no que contém, mas
no que eles contam sobre as vidas, valores e práticas funerárias
de uma civilização antiga.
“Há
um ditado por aqui: ‘Você não pode dar prioridade aos mortos.
Você precisa dar moradia aos vivos’”, disse Hendili, que chama
as sepulturas de “ajuntamento funeral de Dilmun e Tylus”.
Patrimônio mundial
A
ministra da cultura e informação, Mai Bint Mohammed al-Khalifa,
tem sido a força motora por trás da tentativa de preservar e
promover o passado de Bahrein.
Ela
esteve ativamente envolvida na primeira nomeação de Patrimônio
Mundial da Unesco em Bahrein, e está trabalhando com Hendili
para tentar indicar 11 dos 35 campos de enterros restantes como
sítios de patrimônio mundial.
Com túmulos, entretanto, ela enfrenta não apenas a batalha existencial entre construir e preservar, mas também o desafio dos interesses garantidos legalmente.
Em
resumo, a questão é a seguinte: segundo as autoridades locais,
os cidadãos com menos direitos civis do Bahrein precisam
sustentar a maior parte da carga da preservação, pois os ricos e
bem- relacionados sempre conseguem a permissão para construir
em suas terras.
Rápido
avando de Manama cria contraste entre a antiga e a nova
Bahrein. Pescadores, que trabalham e um porto antigo,
têm vista para a moderna cidade. (Foto: Shawn
Baldwin/The New York Times)
Mesmo
aqueles que defendem a preservação reconhecem que ficou muito
mais difícil convencer as comunidades de renda baixa do valor
dessas sepulturas quando eles enxergam as casas dos ricos e
bem-relacionados , logo do outro lado da rua, subirem onde antes
estavam as sepulturas.
“Trata-se
de um jogo de interesses”, disse Yousif al-Bouri, presidente do
Conselho Municipal do Norte, um grupo que representa mais de 30
vilas.
“Existem todos esses
sinais que dizem ‘você não pode fazer isso, você não pode fazer
aquilo’. De repente os sinais se apagam e os túmulos são
retirados. Estas eram terras do governo dadas a pessoas
bem-relacionadas, que as venderam”.
Bouri representa a vila de Bouri, que fica a 16 quilômetros da capital. Diretamente do outro lado da moderna rodovia está outra vila, A’ali, com população de cerca de 9 mil pessoas. Ambas são de maioria xiita e fazem fronteira com grandes campos de sepulturas, que permanecem intocadas.
Há campos de sepulturas muito maiores em A’ali, também, chamados Tumbas Reais, montanhas de areia e rochas mais altas que as casas de bloco de dois e três andares onde as pessoas moram.
Parece que todas as Tumbas
Reais foram saqueadas, transformadas em pilhas de lixo anos
atrás. A vila cresceu ao redor delas.
“A
vila de A’ali é o único lugar no mundo onde você tem a
interação da vida contemporânea e os elementos funerários da
Idade do Bronze”, disse Hendili. Porém, acrescentou ele, “Não há
mais garantia de que elas serão protegidas”.
Hendili e a ministra da cultura, Khalifa, têm algum apoio nas vilas. Mas pode ser apenas que a confluência de interesses – o rico que quer vender suas terras e o pobre que precisa construir nas suas – seja a força que prevalece, dizem alguns especialistas.
Aqueles a favor da
preservação dizem que a estratégia do governo parece ser não
fazer nada, e esperam que o problema simplesmente vá embora.
“O
governo não quer enxergar esse problema por conta de seus
interesses pessoais”, disse Ala’ali, membro do parlamento.
Segundo
ele, essa situação deixa de lado um ponto muito mais
importante, o de que as duas partes do conflito nunca deveriam
ter sido definidas como excludentes.
Preservação e progresso são, na verdade, dependentes um do outro. “Quem não tem passado”, disse ele, “não tem futuro”.
Fonte: G1
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