Os
arqueólogos localizaram fragmentos de paredes de tijolos. Os estilos
de cerâmica e a datação por carbono da muralha apontam para o ano 5000
AC.
Arqueólogos
iniciaram escavações no norte da Síria que devem ampliar e aprofundar a
compreensão da cultura pré-histórica da Mesopotâmia que deu origem às
primeiras cidades e Estados do mundo, e à invenção da escrita.
Em duas temporadas de avaliação preliminar e escavações no sítio de
Tell Zeidan, pesquisadores americanos e sírios descobriram amostras
fascinantes de artefatos naquilo que foi um robusto assentamento
pré-urbano no curso superior do rio Eufrates.
O sítio foi habitado por dois milênios, até 4000 AC, um período pouco conhecido mas crucial para evolução humana.
Estudiosos da antiguidade afirmam que Zeidan pode oferecer novas
percepções sobre a vida no chamado período de Obeid, de 5500 AC a 4000
AC.
A agricultura com uso de
irrigação se difundiu, o comércio de longa distância ganhou influência
social e econômica, poderosos líderes políticos surgiram e comunidades
gradualmente se dividiram em elites prósperas e cidadãos comuns mais
pobres.
Gil Stein, diretor do
Instituto Oriental da Universidade de Chicago e das escavações em
Zeidan, disse que a localização setentrional do sítio prometia ampliar o
conhecimento sobre a influência da cultura de Obeid a distância maior
do ponto em que os primeiros centros urbanos viriam a florescer, no
curso inferior do rio Tigre e no vale do Eufrates.
As
novas escavações, ele disse, serão as mais abrangentes em um grande
assentamento do período, e provavelmente resultarão em décadas de
descobertas.
"Minha ideia é a de
que ainda estar trabalhando lá quando chegar a hora de me aposentar",
disse Stein, 54 anos. Existem diversos motivos para o entusiasmo quanto
às escavações em Zeidan.
A
guerras e as condições instáveis que elas gerou impedem que arqueólogos
trabalhem no Iraque e em seus sítios primários da antiguidade da
Mesopotâmia.
Por isso, eles redobraram seus esforços na porção norte dos rios, do lado sírio e turco da fronteira.
E
Zeidan é um local de fácil acesso. Porque culturas subsequentes não
construíram cidades sobre o assentamento, a tarefa dos escavadores é
facilitada.
Uma
das descobertas mais reveladoras foi um selo de pedra, possivelmente
usado para marcar bens e identificar propriedade, em era anterior à
escrita. O selo é incomumente grande e foi entalhado em uma pedra
vermelha que não é originária do local
Uma
das ambições dominantes de um arqueólogo é escavar para além do
passado conhecido e obter mais que um vislumbre do desconhecido.
Por quase dois séculos, a glória coube a expedições que escavaram as
casas e templos, silos e oficinas dos primeiros centros urbanos, como
Uruk, lar do lendário Gilgamés, e os esplendores posteriores de Ur e
Nineveh.
O desafio era decifrar
os tijolos escritos de uma civilização alfabetizada que surgiu no
chamado período de Uruk, entre 4000 AC e 32000 AC.
Traços das culturas do período Obeid, a primeira sociedade complexa
conhecida na região, continuam a existir em toda a área da cultura de
Uruk.
Apenas algumas ruínas - em
Obeid, Eridu e Oueili, no sul da Mesopotâmia, e em Tepe Gawra, perto de
Mosul, Iraque - permitiram vislumbrar essas culturas mais antigas.
Alguns
dos sítios da cultura Obeid no norte da Síria eram pequenos demais
para revelar muita coisa ou estavam virtualmente inacessíveis, sob
outras ruínas.
Uma década atrás,
Richard Zettler, arqueólogo da Universidade da Pensilvânia com ampla
experiência na Síria, disse que "nosso foco real deveria estar no
período de Obeid e não no de Uruk".
Na semana passada, Zettler, que não integra a equipe de Chicago mas
visitou o sítio, disse que Zeidan preserva artefatos de um longo período
da cultura de Obeid, e em um local que servia como nexo para grandes
rotas comerciais.
"Poderemos ver a transição, com o avanço da cultura de Obeid vinda do sul para as regiões agrícolas do norte", afirmou.
Guillermo Algaze, antropólogo da Universidade da Califórnia em San
Diego e autoridade sobre os primórdios do urbanismo do Oriente Médio,
que também não está envolvido na pesquisa, disse recentemente que
Zeidan "tem o potencial de revolucionar as atuais interpretações sobre
como se desenvolveu a civilização no Oriente Próximo".
Em 2008 e 2009, Stein comandou o mapeamento das ruínas de Zeidan e a escavação de trincheiras de exploração.
Ele
disse que as descobertas iniciais confirmaram se tratar de uma
"comunidade proto-urbana" do período de Obeid, possivelmente um templo
importante.
A descrição e
interpretação das descobertas realizadas até agora foi publicada no
recente relatório anual do Instituto Oriental, e seguida por anúncio
oficial da Universidade de Chicago, esta semana.
A
equipe internacional de escavação, bancada pela Fundação Nacional de
Ciências dos Estados Unidos, deve retomar o trabalho de campo em julho.
Quatro fases distintas de ocupação foram identificadas em Zeidan. Um
cultura mais simples conhecida como halaf é encontrada nas camadas
inferiores de sedimentos, material bem preservado do Obeid na camada
intermediária e restos da Idade do Cobre em duas camadas superiores. Os
indícios obtidos até o momento apontam para transição pacífica entre os
períodos.
Os arqueólogos
localizaram restos de assoalhos de casas com fornos, fragmentos de
paredes de tijolos, cerâmica pintada ao estilo Obeid e trechos de
muralhas maiores, possivelmente parte de fortificações ou monumentos.
Os estilos de cerâmica e a datação por carbono da muralha apontam para o
ano 5000 AC.
Uma das descobertas
mais reveladoras foi um selo de pedra com a figura de um cervo,
possivelmente usado para marcar bens e identificar propriedade, em era
anterior à escrita.
Com cerca de
cinco por seis centímetros, o selo é incomumente grande e foi entalhado
em uma pedra vermelha que não é originária do local.
Os
arqueólogos afirmam, de fato, que o selo se assemelha em estilo a um
objeto semelhante encontrado 300 quilômetros a leste, em Tepe Gawra,
perto de Mosul.
Para os
arqueólogos, um selo não é só um selo. Zettler diz que ele significa
que "alguém tem a autoridade de restringir o acesso às coisas - fechar
urnas, sacas, portas. Assim que surge um selo, surge a estratificação
social".
A existência de selos
elaborados com padrões quase idênticos em sítios tão distintos, disse
Stein, sugere que "nesse período, as elites mais elevadas estavam
assumindo posições de liderança em uma região mais ampla, e essas
elites dispersas adotaram um conjunto comum de símbolos e talvez até
uma ideologia comum de status social superior".
Outros artefatos são prova da transição de vida autônoma de aldeia
para a produção especializada, dependente do comércio e capaz de
adquirir produtos de luxo, reportaram os arqueólogos.
Uma transição como essa presumivelmente requereria certa estrutura administrativa e teria produzido uma classe rica.
A
expedição sairá em busca de restos de templos e edificações públicas
imponentes como confirmação dessas mudanças políticas e sociais.
Naquilo que parece ser a área industrial do sítio, arqueólogos
descobriram oito grandes fornos de cerâmica, uma das mercadorias mais
comuns do período Obeid.
Também
encontraram lâminas produzidas de obsidiana vulcânica de elevada
qualidade. A abundância de lascas de obsidiana mostra que as lâminas
eram produzidas no local, e a cor e composição química do material
indica que veio de minas localizadas no território da atual Turquia.
"Encontramos lâminas curvas em toda parte", disse Stein, apontando
que elas tinham marcas de uso, "nos pontos em que receberam polimento
pela sílica contida nos talos de trigo que eram usadas para colher".
Zeidan também contava com uma fundição para produzir ferramentas de cobre, a mais avançada tecnologia do século 5 AC.
Em
duas temporadas de avaliação preliminar e escavações no sítio de Tell
Zeidan, pesquisadores americanos e sírios descobriram amostras
fascinantes de artefatos naquilo que foi um robusto assentamento
pré-urbano no curso superior do rio Eufrates
Os
moradores provavelmente comerciavam com comunidades a cerca de 400
quilômetros de distância para adquirir minério de cobre, de fontes
próximas à moderna Diyarbakir, Turquia. Transportar o minério não era
tarefa fácil.
Em era anterior à invenção da roda ou domesticação de jumentos, as pessoas teriam de transportar o pesado minério às costas.
Um sítio como Zeidan, disse Zettler, "nos informa que as cidades de
Uruk não vieram do nada; evoluíram das fundações estabelecidas pela
cultura de Obeid".
Até
recentemente, disse Algaze, "acidentes de recuperação de dados" haviam
levado os estudiosos a acreditar que a origem das cidades e Estados da
Mesopotâmia fosse "ocorrência bastante abrupta no quarto milênio, e
concentrada no sul do atual Iraque".
As cidades ao sul podem ter sido maiores e mais duradouras, ele
disse, mas a crescente pesquisa na periferia da Mesopotâmia,
especialmente sobre a difusão do comércio e tecnologia entre as
culturas do Obeid, sugere que "a semente da civilização" havia sido
plantada bem antes de 4000 AC.
Fonte: Terra
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