
A arqueologia não é só a busca por posses, habilidades e crenças de culturas antigas. Também se trata de espaços de habitação.
Escavações recentes em Israel parecem mostrar que ancestrais humanos da
Idade da Pedra começaram, em um estágio surpreendentemente precoce, a
organizar seus espaços habitacionais ao ar livre em grupos separados
para diferentes atividades.
Uma
área era usada principalmente para preparar e comer os alimentos, e
outra, a mais de 7 metros de distância, era usada para a produção de
ferramentas de pedra.
Arqueólogos
que relataram as descobertas neste mês na revista "Science" disseram
que ter áreas separadas para diferentes atividades indicava "um conceito
formalizado de espaço habitacional, que muitas vezes reflete uma
sofisticada cognição".
A surpresa, segundo os arqueólogos, foi descobrir a evidência disso em um assentamento que foi ocupado há 790 mil anos.
Esses padrões de vida e trabalho antes eram associados apenas ao Homo sapiens moderno e, portanto, um comportamento que só emergiu nos últimos 200 mil anos.
Organização
No relato, Nira Alperson-Afil e seus colegas observaram que "o uso
moderno do espaço requer organização social e comunicação entre membros
do grupo, e acredita-se que isso envolva parentesco, gênero, posição e
habilidades".
Alperson-Afil,
arqueóloga da Universidade Hebraica em Jerusalém, e pesquisadores da
Alemanha, Israel e Estados Unidos analisaram os resquícios de Gesher
Benot Ya'aqov, no vale do rio Jordão, onde ancestrais humanos viveram na
margem de um lago antigo.
Níveis superpostos de artefatos indicavam que o local foi ocupado por um período de 100 mil anos.
Escavações
dirigidas por Naama Goren-Inbar, também da Universidade Hebraica, já
tinham exposto evidências, relatadas um ano atrás, de que ocupantes do
local tinham a habilidade de produzir e controlar fogo. Se isso estiver
correto, será o primeiro exemplo definitivo do controle da produção do
fogo.
"É
um local extraordinário", disse Alison S. Brooks, professora de
antropologia da George Washington University, sem envolvimento com o
estudo.
"Existem bem poucos locais como esse daquele tempo na África, Oriente Médio ou qualquer outra parte".
Brooks
disse que a evidência de uma lareira "implica um tipo de organização
espacial no local", mas alertou que arqueólogos teriam de estudar as
descobertas antes de comentar sobre as interpretações.
Homo erectus
A
identidade dos ocupantes de Gesher Benot Ya'aqov é desconhecida; nenhum
de seus restos mortais foi encontrado ali. Cientistas afirmam que eles
podem ter sido Homo erectus, uma espécie que, segundo suposições,
deixou a África mais de 1 milhão de anos atrás, ou uma espécie
intermediária mais recente da família dos humanos.
A
primeira evidência conhecida de ferramentas de pedra está associada a
hominídeos que viveram há 2,6 milhões de anos no que hoje é a Etiópia.
A
equipe de Alperson-Afil relatou que os ocupantes "produziam com
habilidade ferramentas de pedras, abatiam e exploravam sistematicamente
animais, coletavam plantas comestíveis e controlavam o fogo". Rochas,
madeira e outros materiais orgânicos queimados mostravam a presença de
fogo em lareiras em locais específicos.
Dois
coautores, Goren-Inbar e Gonen Sharon, explicaram por e-mail que, se
esses fossem o resultado de fogo natural, "esperaríamos que sua
distribuição fosse similar à distribuição geral de artefatos de pedra e
outros materiais, e não agrupados como estão".
Lareira
Na
parte norte do local, arqueólogos encontraram uma concentração de
fragmentos --pedaços de rochas, ferramentas de pedra para cortar e
raspar usadas na preparação de alimentos, pedaços de cascos de
caranguejos e espinhas de peixes, várias sementes, nozes, grãos e
fragmentos de madeira. O material queimado sugeria a existência de uma
lareira ali.
Embora
a lapidação da pedra ocorresse de forma abundante na área,
presumivelmente relacionada à produção de fogo, a maioria das peças de
rochas queimadas foi coletada na parte mais ao sul do local, onde os
arqueólogos afirmaram que havia evidências definitivas de lareira.
A densidade de artefatos de basalto e calcário mostrou que ali era o centro de produção de ferramentas.
Entre
os dois centros de atividade, disseram os pesquisadores, parecia haver
apenas artefatos dispersos, nada que sugerisse como a área era usada.
Goren-Inbar
e Sharon disseram que "o fato de reconhecermos zonas de atividades e
definirmos como algumas das atividades aconteciam já é uma grande
descoberta por si só".
Fonte: Folha Online
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