Se
uma dor de dente pode acabar com o dia de alguém no século XXI, é de se
imaginar o sofrimento que uma inflamação dentária causava em um morador
do Egito Antigo milênios antes da invenção da broca e do creme dental.
Uma
pesquisa realizada na Universidade de Zurique, na Suíça, concluiu que
dentes gastos e abscessos eram o terror daqueles tempos.
Trata-se
do primeiro estudo aprofundado da saúde bucal de faraós e outros
membros da nobreza, feito a partir de uma revisão de pesquisas
realizadas em três mil múmias desde 1977.
Tais estudos só são possíveis graças às técnicas de mumificação egípcias, capazes de preservar dentes ao longo de milênios.
O
levantamento confirma algo que os arqueólogos já suspeitavam. No Egito
Antigo, o trigo era processado em moedores de pedra, o que fazia com que
pedaços de rocha se soltassem e se misturassem à matéria-prima com a
qual o pão era feito.
Como
alimento abundante sempre foi privilégio dos mais ricos, os nobres
tinham as bocas mais prejudicadas. “Quanto mais alta a posição social,
pior eram os dentes”, explica o egiptólogo Antônio Brancaglion, da
Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Tantos
dentes gastos e quebrados aumentavam a demanda por especialistas, o que
fez do Egito a terra dos melhores dentistas do Mediterrâneo durante a
Terceira Dinastia, por volta do ano 2300 a.C.
Já
naquela época, os médicos eram divididos em cirurgiões,
oftalmologistas, veterinários e dentistas. Graças a seu talento e
perícia, muitos deles iam trabalhar em outras cortes, que reconheciam
seu talento no tratamento de doenças e fraturas.
Além
de extrair dentes quebrados e podres, os dentistas da época drenavam
abscessos e faziam até pontes dentárias, prendendo um dente solto a
outro saudável.
“Eles usavam fios de
metal, normalmente ouro, para fazer esses anéis”, diz Brancaglion. Vale
lembrar que uma infecção na boca poderia levar à morte na era
pré-antibióticos.
O
estudo suíço também revela as outras utilidades das arcadas dentárias
dos egípcios. Segundo os pesquisadores, os trabalhadores usavam os
dentes como ferramenta para segurar cordas, no caso dos pescadores, e
para esticar couro, numa profissão que hoje seria equivalente à de um
sapateiro.
Pobres ou ricos,
porém, dividiam a mesma carência de higiene bucal. “Eles usavam um talo
de papiro ou junco para tirar os restos de alimentos dos dentes e depois
enxaguavam suas bocas.
Só isso”,
afirma Brancaglion. Mesmo numa época em que o abismo entre ricos e
pobres era tão grande ou maior do que hoje, todos dividiam a mesma dor.
Fonte: Isto É Independente


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