
Analfabetas, classes baixas da sociedade preservavam a memória sepultando objetos.
Eles
eram fazendeiros, pedreiros e servos analfabetos, mas os plebeus maias
encontraram uma forma de registrar a própria história, enterrando-a em
seus lares.
Um novo estudo dos objetos enterrados no piso das casas ocupadas há mais de 1.000 anos na região central de Belize começa a revelar essa história.
Um novo estudo dos objetos enterrados no piso das casas ocupadas há mais de 1.000 anos na região central de Belize começa a revelar essa história.
O trabalho, realizado pela antropóloga Lisa J. Lucero, está publicado na revista especializada Journal of Social Archaeology.
Maias
do período clássico dessa cultura, entre os anos 290 e 900,
periodicamente "encerravam" suas casas, derrubando as paredes,
incendiando os pisos e depositando artefatos - às vezes, junto com
restos humanos - por cima de tudo, antes de realizar uma segunda queima.
As
evidências sugerem que esses rituais se repetiam a cada 40 ou 50 anos,
e provavelmente marcavam datas importantes do calendário maia.
Após
um encerramento, a família erguia uma nova casa sobre a velha
fundação. Objetos, como potes e contas coloridas, eram depositados no
solo antes que um novo piso fosse instalado.
A realeza maia registrava sua história por escrito e com imagens entalhadas em monumentos, explica a antropóloga.
"Mas os plebeus tinham seu próprio meio de registro histórico, não
apenas da história da família, mas de seu lugar no universo".
"Essas coisas eram enterradas, para não serem vistas, mas isso não significa que fossem esquecidas", disse ela.
Cientistas
conhecem o ritual de "desanimação" e "reanimação" do lar há décadas,
mas Lisa optou por estudar em detalhes o arranjo, a cor e as condições
dos artefatos enterrados, e buscar um sentido simbólico.
Ela
e sua equipe encontraram mais de uma dezena de restos humanos em duas
casas escavadas numa pequena cidade maia conhecida como Saturday Creek,
na região central de Belize. Essas casas foram ocupadas de 450 a1150.
Cores,
como vermelho, que representa o oriente, a vida e o nascimento, eram
usadas frequentemente nas sepulturas. às vezes, um vaso vermelho era
usado para cobrir um crânio ou um joelho. Objetos vermelhos foram
encontrados com mais frequência a leste do corpo ou de um grupo de
outros artefatos.
Outros artefatos, como grupos de pedras, representavam a crença maia em nove níveis de submundo e 13 níveis de paraíso.
Peças de cerâmica quebradas, muitas vezes sem a borda ou deliberadamente furadas, também foram encontradas.
"As
coisas que tinham sido usadas na vida precisavam ser encerradas antes
de entrar no nível seguinte de existência", disse a antropóloga. Os
vasos sem borda, segundo ela, são especialmente intrigantes.
"Quebrar
as bordas dá muito trabalho", disse. "Remover a borda pode ser uma
forma de encerrá-los, e de dar um pedaço a outra pessoa".
É
possível que os maias reverenciassem os pedaços de objetos encerrados
como pessoas religiosas de hoje reverenciam relíquias.
A
análise apoia a ideia de que muitos dos rituais complexos realizados
pela elite maia tinham base nos ritos domésticos dos súditos.
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