Urna funerária (à dir.) e outras cerâmicas; tese vai contra a ideia de que a sociedade na Amazônia era complexa
Um grupo de geólogos acaba de apimentar ainda mais uma das maiores controvérsias da arqueologia atual.
Eles
afirmam que os chamados tesos marajoaras, grandes aterros que abrigavam
aldeias indígenas na pré-história, foram formados naturalmente, e não
construídos por povos antigos.
Se
confirmada, a hipótese será um duro golpe na visão atual dos
arqueólogos de que a Amazônia foi habitada por sociedades complexas e
altamente hierarquizadas, diferentes dos povos indígenas atuais.
Essa visão, que se estabeleceu na arqueologia sul-americana a partir
dos anos 1980, sustenta que as sociedades indígenas de hoje
--geograficamente espalhadas, com população baixa e cultura material
relativamente simples-- são resultado do genocídio praticado pelos
europeus na Amazônia a partir do século 16.
E algumas das principais evidências em favor disso estão justamente na ilha de Marajó, no Pará, foz do rio Amazonas.
As elaboradas cerâmicas coloridas marajoaras, que vão de urnas funerárias a tangas de barro, são conhecidas desde o século 19.
E
escavações feitas na ilha a partir dos anos 1980, sobretudo pela
arqueóloga americana Anna Roosevelt, (então no Museu Field, da
Universidade de Chicago), ligaram a produção dessas cerâmicas à
construção dos tesos, estruturas de até 90 hectares de área por 20
metros de altura no meio da planície alagável.
Segundo
Roosevelt, os tesos foram erguidos por uma sociedade de ceramistas que
habitou Marajó e que teve seu apogeu entre os anos 500 e 1500.
Eles serviriam de base para as aldeias (já que a região onde se encontram alaga durante metade do ano) e de cemitério.
Como
a produção de estruturas monumentais demanda a mobilização de grandes
quantidades de mão-de-obra, Roosevelt propôs que a sociedade marajoara
fosse um cacicado, uma espécie de organização política intermediária
entre uma sociedade tribal e um Estado.
Trabalhos
posteriores da arqueóloga brasileira Denise Schaan, hoje na
Universidade Federal do Pará, sugeriram que os tesos se articulavam em
redes políticas regionais em vez de um poder centralizado.
Paleocanais
O
problema dessa interpretação arqueológica é que nunca se encontraram,
em Marajó, vestígios de agricultura em grande escala que pudessem ter
sustentado uma população tão grande quanto Roosevelt, Schaan e colegas
supõem que houvesse na ilha.
Várias soluções para o problema têm sido propostas nas últimas duas décadas, mas o debate continua aberto.
Neste
ano, num estudo publicado no periódico "Geoarchaeology", um trio de
pesquisadores liderados pela geóloga Dilce Rossetti, do Inpe (Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais) fornece uma nova interpretação: a maior
parte da monumentalidade dos tesos marajoaras se deve não à ação
humana, mas a um processo natural de deposição.
A civilização marajoara teria simplesmente aumentado os aterros, ampliando um trabalho realizado pela água.
Rossetti
e seus colegas mapearam, usando imagens de satélite, a rede de
paleocanais que cobria grande parte de Marajó até o fim da Era do Gelo,
cerca de 11 mil anos atrás. Como o nome indica, paleocanais são riachos
pré-históricos, que secaram há muito tempo.
Esses canais transportavam grandes quantidades de areia e argila, que acabavam sendo depositadas em seus meandros. Quando eles secaram, esses bancos de areia acabaram virando zonas elevadas.
"Nós notamos a correspondência dos sítios arqueológicos com os paleocanais", disse Rossetti à Folha, por e-mail.
Segundo
Rossetti e seus coautores, Ana Maria Góes e Peter Mann de Toledo, o
formato ovalado dos tesos é uma pista de sua origem fluvial.
De
posse das imagens de satélite, o grupo do Inpe também foi a campo. Em
Marajó, eles perfuraram tanto os paleocanais quanto dois tesos
arqueológicos, o Teso dos Bichos e o Teso Santa Luzia. Em ambos foram
coletadas e datadas amostras de sedimento de 18 metros de profundidade.
A
análise dos testemunhos (cilindros de sedimento de cinco centímetros de
diâmetro) mostra que só nos 2 metros de cima (ou seja, as camadas mais
recentes) há vestígios de material arqueológico.
Abaixo
disso, afirma Rossetti, "registra-se que os sedimentos não foram
modificados depois de sua formação". Em bom português, os humanos
participaram da construção dos tesos, mas só de sua parte final.
Estruturas
menos monumentais também demandariam menos mão-de-obra em sua
construção, o que abalaria a visão dos arqueólogos de uma civilização
complexa.
Reversões
"Embora a questão seja interessante e válida, esse estudo não a elucida", disse Roosevelt.
A
americana aponta vários problemas no trabalho, sendo o principal deles
uma metodologia inadequada para investigar presença humana nos sítios.
Segundo
a pesquisadora, que se prepara para vir escavar na Amazônia nas
próximas semanas, perfurações usadas em geologia, por exemplo, não
conseguem "ver" objetos maiores que 5 cm de diâmetro ou outros vestígios
de ocupação humana --espacialmente diversificada.
É por isso que "buracos" feitos por arqueólogos em um sítio sempre têm pelo menos um metro de lado.
Além disso, diz Roosevelt, os autores registraram várias reversões de camadas de areia e argila na coluna de sedimentos.
"Essas
inversões são indicadores clássicos de atividade monticular [construção
de aterros]", diz Eduardo Góes Neves, arqueólogo da USP que escava na
Amazônia Central. "Os autores têm evidências de inversões e não
perceberam isso."
Neves
diz, no entanto, que gosta do argumento do grupo do Inpe e que ele pode
explicar mistérios como a falta de evidência de agricultura.
Rossetti admite que não domina os métodos arqueológicos, mas diz que suas evidências são bem completas. "Achamos interessante trazer esses dados para serem analisados pela comunidade arqueológica", afirma a pesquisadora.
Fonte: Folha Online
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