Fragmentos de pratos de decoração do século 19 que foram encontrados no local, em uma área de 7.000 metros quadrados
Um
grupo de arqueólogos descobriu 2.344 utensílios domésticos do século 19
soterrados em plena cracolândia, a área mais degradada do centro de São
Paulo.
Foram
encontrados pratos, xícaras, moringas, vasos, potes e até penicos,
entre muitos outros objetos, feitos de materiais como porcelana,
cerâmica, louça e vidro e que ajudam a contar a história da cidade. A
maior parte está despedaçada e será reconstruída.
"Foi uma grande surpresa. Normalmente não passa pela cabeça de um
arqueólogo encontrar tantos vestígios tão bem preservados numa cidade
como São Paulo", afirma Paulo Bava Camargo, do grupo Zanettini
Arqueologia.
Localizada
no meio de uma região onde hoje vagueiam viciados em crack --daí o
apelido cracolândia--, a quadra em questão é delimitada pelas ruas
Timbiras, Andradas, Aurora e General Couto de Magalhães e tem 7.000
metros quadrados.
No local funcionou um estacionamento até o ano passado, quando o quarteirão foi desapropriado pelo Estado.
Ali
serão erguidas uma escola técnica e a nova sede do Centro Paula Souza
(entidade responsável pelas escolas técnicas e pelas faculdades de
tecnologia estaduais). O governo de São Paulo quer os edifícios prontos
até o fim do ano que vem.
Por
exigência da legislação, o Centro Paula Souza teve de realizar uma
avaliação arqueológica no terreno. Os arqueólogos foram à cracolândia em
junho passado e viram vestígios de 150 anos atrás brotar logo nas
primeiras escavações.
20 réis
Entre
os achados há objetos nacionais e importados. Alguns são finos,
cuidadosamente pintados a mão. Outros são rústicos e até mesmo
defeituosos. Isso sugere que naquela quadra conviviam ricos e pobres.
"No
final do século 19, São Paulo estava dividida. Havia os Campos Elíseos e
a República, áreas de ocupação mais nobre, e o Bom Retiro, onde viviam
os imigrantes, os trabalhadores. Era no meio delas que se dava o
encontro [das classes sociais]", explica Bava Camargo.
Essa
região era o coração de São Paulo. A poucos passos estão as estações
ferroviárias da Luz e Júlio Prestes, construídas justamente naquela
época.
No
quarteirão escavado também foram encontradas pás, machadinhas,
ferraduras e moedas -uma é de 20 réis, em cobre, e circulou entre 1868 e
1871.
Isso mostra que, além de
residencial, a área também tinha comércio. Os arqueólogos creem na
existência, por exemplo, de uma estrebaria.
Segundo
o arqueólogo Bava Camargo, o fato de não haver um sistema organizado de
coleta do lixo -São Paulo só contou com esse serviço na virada para o
século 20, em resposta a uma epidemia de febre amarela-, as famílias
enterravam ou simplesmente atiravam os entulhos no quintal de casa.
O
Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional)
analisará o relatório redigido pelos arqueólogos para decidir o destino
dos objetos históricos.
Paulo Zanettini, o líder do grupo que fez as escavações, gostaria de vê-los expostos na própria região da Luz.
"Descobertas desse tipo mostram que o passado de São Paulo é muito mais rico do que se imagina", diz Bava Camargo.
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